Era uma vez um castelinho…

71YaQ1jUtqL._SL1500_Dia de sol, vamos brincar no parquinho da praça. Atração principal: tanque de areia. O projeto é a construção de um castelo medieval, com torres e fosso, cujo acesso se dará por highways livres de pedágios, onde os carros trafegarão sem limite de velocidade e sem radares fotográficos. Com uma visão de empreiteiro, decido também que a estrada terá um túnel, que logicamente ligará o nada ao lugar nenhum, somente para que os veículos passem por dentro.

Concordo que talvez haja um certo ecletismo no projeto e o resultado final possa ser catastrófico, mas  foram demandas do meu filho e vivemos em São Paulo, onde a referência de beleza são prédios neoclássicos com colunas jônicas. Feita esta ressalva, lá vou eu com todo o ferramental necessário para construção (pás,balde,forminhas,caminhão betoneira).

Junto com aquele que é ao mesmo tempo o meu cliente e mestre de obras, busco um canto com sombra, que parece ser o terreno ideal para a execução de nossa obra prima da arquitetura. Organizo o arsenal e inicio o processo de terraplenagem. Subitamente percebo que estou cercado por membros do MST da praça (MST=Movimento dos Soberanos do Tanquinho). Crianças de todas as idades se aproximam, invadem a minha propriedade produtiva,destroem o que eu havia começado a construir e somem com as minhas ferramentas de trabalho.

Moças vestidas de branco, que parecem ser as mentoras daquele ato, ficam passivas, fofocando entre si e olhando mensagens em seus celulares. Ninguém faz nada e de repente me vejo em uma batalha de Davi contra Golias para recuperar o baldinho vermelho, peça indispensável para o meu trabalho (eu sou o Davi, apesar de ter o triplo de tamanho de meu inimigo). Os militantes do MST atuam como uma gangue, apesar de terem uns 90 cm de altura . Tento o diálogo, explico que trouxe  o baldinho de casa, que é propriedade privada. Argumento que todos são bem vindos para brincarmos juntos desde que respeitadas algumas regras e que não se estrague o que o outro está fazendo…Nada. O caminhão, já sem rodas, parece desfalecido ao lado de uma moita. A forminha de estrela amarela foi vista pela última vez em cima de um escorregador a metros de distância do tanque de areia.

O meu desejo era dar um leve belisquinho em cada uma daquelas crianças mal educadas e fazer uma pregação para pais e babás negligentes da praça para que se mexessem. Explicar que brincar junto não é destruir e nem sumir com as coisas dos outros, que “por favor” ainda existe , que respeito ao próximo é importante em todas as situações, que educação não cai do céu. Desisti. Lembrei que eu só queria brincar com o meu filho e não para advogar por mudanças de caráter. Não naquela hora…peguei o espólio de meu ferramental e levei o meu filho para tomar sorvete…O próximo castelo será construído em minecraft.

 

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