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Espírito de natal

man in santa claus costume

– Pai, o Vicente me disse que irá se casar com o Papai Noel.

– Legal, meu filho. Que eles sejam muito felizes. Quem sabe um dia não vamos visitá-los na Lapônia.

-Pai, mas menino pode casar com menino ?

– Pode, meu filho. As pessoas tem que ir em busca da sua felicidade. Se o Vicente quando crescer, gostar de um outro homem e achar que é com ele que deve casar, ele pode fazer isto.

-Pai, mas o Papai Noel é velho. O Vicente pode se casar com um velho?

– Filho, o Vicente não irá casar com ninguém aos 4 anos de idade. Quando ele crescer e virar adulto, aí ele vai saber se ainda gosta do Papai Noel e se é com ele que quer casar. O importante é o Vicente ser feliz.

– E se o Papai Noel se casar com o Vicente, ele ainda virá aqui em casa para trazer presentes para mim?

– Claro, filho. Papai Noel jamais se esquece das crianças. Ele já tem uma relação estável com a Mamãe Noel e também é bem amigo dos duendes e mesmo assim, todo ano aparece por aqui. Isto não mudaria se ele se casasse.

-Ah, então tá. Ano que vem eu vou pedir um trem e um Power Rangers para ele.O natal está longe ?

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Era uma vez um castelinho…

71YaQ1jUtqL._SL1500_Dia de sol, vamos brincar no parquinho da praça. Atração principal: tanque de areia. O projeto é a construção de um castelo medieval, com torres e fosso, cujo acesso se dará por highways livres de pedágios, onde os carros trafegarão sem limite de velocidade e sem radares fotográficos. Com uma visão de empreiteiro, decido também que a estrada terá um túnel, que logicamente ligará o nada ao lugar nenhum, somente para que os veículos passem por dentro.

Concordo que talvez haja um certo ecletismo no projeto e o resultado final possa ser catastrófico, mas  foram demandas do meu filho e vivemos em São Paulo, onde a referência de beleza são prédios neoclássicos com colunas jônicas. Feita esta ressalva, lá vou eu com todo o ferramental necessário para construção (pás,balde,forminhas,caminhão betoneira).

Junto com aquele que é ao mesmo tempo o meu cliente e mestre de obras, busco um canto com sombra, que parece ser o terreno ideal para a execução de nossa obra prima da arquitetura. Organizo o arsenal e inicio o processo de terraplenagem. Subitamente percebo que estou cercado por membros do MST da praça (MST=Movimento dos Soberanos do Tanquinho). Crianças de todas as idades se aproximam, invadem a minha propriedade produtiva,destroem o que eu havia começado a construir e somem com as minhas ferramentas de trabalho.

Moças vestidas de branco, que parecem ser as mentoras daquele ato, ficam passivas, fofocando entre si e olhando mensagens em seus celulares. Ninguém faz nada e de repente me vejo em uma batalha de Davi contra Golias para recuperar o baldinho vermelho, peça indispensável para o meu trabalho (eu sou o Davi, apesar de ter o triplo de tamanho de meu inimigo). Os militantes do MST atuam como uma gangue, apesar de terem uns 90 cm de altura . Tento o diálogo, explico que trouxe  o baldinho de casa, que é propriedade privada. Argumento que todos são bem vindos para brincarmos juntos desde que respeitadas algumas regras e que não se estrague o que o outro está fazendo…Nada. O caminhão, já sem rodas, parece desfalecido ao lado de uma moita. A forminha de estrela amarela foi vista pela última vez em cima de um escorregador a metros de distância do tanque de areia.

O meu desejo era dar um leve belisquinho em cada uma daquelas crianças mal educadas e fazer uma pregação para pais e babás negligentes da praça para que se mexessem. Explicar que brincar junto não é destruir e nem sumir com as coisas dos outros, que “por favor” ainda existe , que respeito ao próximo é importante em todas as situações, que educação não cai do céu. Desisti. Lembrei que eu só queria brincar com o meu filho e não para advogar por mudanças de caráter. Não naquela hora…peguei o espólio de meu ferramental e levei o meu filho para tomar sorvete…O próximo castelo será construído em minecraft.

 

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Palavrinha mágica

babytalk2-thumb-250x250Já faz alguns meses que o meu filho começou a tentar se comunicar através da fala (atentem que não escrevi falar e sim, tentar se comunicar através da fala). Está sendo um processo incrível. No começo 99,9% da humanidade, incluindo eu, achavam bonitinho ouvir os sons guturais emitidos por ele mas não tinham a menor idéia do que ele queria dizer. Logicamente, havia 0,01% do universo, popularmente conhecido como “mãe”, que não apenas conversava com ele neste idioma próprio como oferecia os seus serviços de tradutora e intérprete juramentada para os mortais.

Aos poucos, os sons começam a fazer sentido e você reconhece algumas palavras complexas sendo pronunciadas pelo seu filho. Logicamente “mamãe”está entre elas. Até aí você aceita….carregou 9 meses, acordou mais vezes, deu mais de mamar. É justo. Você então inicia um processo de condicionamento do seu filho, para que ele fale “papai”,senão com a mesma frequência, mas em um padrão aceitável, para que você não fique socialmente exposto e passível de ser julgado como pai ausente pelo tribunal de mães amigas de sua esposa.

Algo parece dar errado, porque quanto mais você o estimula, melhor ele pronuncia o nome da babá, especialmente quando ela está de folga ou viajou de férias para a Bahia. Se antes você acreditava que dividiria uma medalha de ouro com a mãe, observa que querer a medalha de prata já é algo quase impossível. Comemore caso o seu nome seja pronunciado entre os top ten. Você nem imagina mas está competindo com o guardinha da escola, o porteiro do prédio, a balconista da padaria e até com a Dolores, que você mais tarde descobre que é a tia da referida babá.  Se prepare psicologicamente para esta derrota, querer que seu filho pronuncie “papai”com a mesma frequência que ele faz “mamãe” é algo como enfrentar o Barcelona no Camp Nou. Se contente em perder de pouco…Pronunciar “mamãe” tem poderes maiores que qualquer senha biométrica de banco…seu filho perceberá isto bem cedo.