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Pó pó pó pó pó…

Pó pó pó pó pó…Galinha

A Galinha Pintadinha e o Galo Carijó. A galinha usa saia e o galo paletó

A galinha ficou doente e o galo nem ligou e os pintinhos foram correndo pra chamar o seu doutor

O doutor era o peru( glu-glu) a enfermeira era um urubu(uh-uh) e a agulha da injeção era a pena do pavão

Uiiiii!Galinha

Pó pó pó pó pó…

Bis: 983.434 vezes ou até você enlouquecer.

A repetição ininterrupta desta musiquinha poderia ser tranquilamente uma técnica de tortura utilizada em Guantanamo mas no meu ambiente doméstico se trata apenas do João, se candidatando a entrar no Guinness Book como a criança que mais ouviu a Galinha Pintadinha em um intervalo de 24h. Se depender de mim, além de pintadinha,Galinha a galinha se transformará em curtíssimo espaço de tempo em esganiçadinha e depenadinha.

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Game of thrones

Blue Throne Chair isolated on white background. 3D renderUm dos elementos que melhor simboliza o poder de um monarca é o seu trono. No sentido prático da coisa, aquela cadeira especial, alta e imponente que mostra para todos que ali se senta uma bunda diferenciada. Não importa se as dimensões das nádegas sejam as menores do reino. Estamos falando de poder e prestígio e não de justiça ou igualdade de direitos.

Assim como os súditos devem ser reverentes às suas majestades e se ajoelhar perante o trono, cabe a mim como pai, assegurar que o membro da família real (meu filho) se refastele em seu assento especial, popularmente conhecido como cadeirinha, em cada deslocamento que faça pelas terras da vizinhança. Ele merece conforto, segurança e bem estar e cabe a mim assegurar estas coisas.

Recentemente ousei mexer naquele território sagrado. Preocupado com as migalhas, manchas de suco, cabelos de Playmobil e elementos não identificados que se acumulavam nos arredores daquele centro de poder e ameaçavam destruí-lo, cometi o erro de remover a cadeirinha de onde ela repousava há alguns anos.

A higienização da cadeirinha foi bem recebida e ganhei pontos na escala de bom pai, em que oscilo mais do que a bolsa de valores. Foi porém, um momento de alegria fugaz…Logo em seguida recaiu sobre mim uma pesada maldição: a tarefa de recolocar a cadeirinha em seu devido lugar, restabelecendo às ordens de poder e hierarquia vigentes em nossa família. Era o meu episódio doméstico de Game of Thrones – meu filho deveria ser reconduzido ao seu trono imediatamente. Mais dramático ainda: eu deveria fazer isto acompanhado pelos olhares severos da rainha mãe, que em alguns momentos parecia personificar Cersei Lannister. Eu tentava me guiar por gráficos que me orientavam a fixar a base da cadeirinha em sentido perpendicular à Meca, passar o cinto de segurança entre o ponto A e ponto B, travar no ponto C, ouvir um click e pronto. Estava tudo no manual, de forma didática, serena e cristalina, típica de consultores vendendo os seus projetos sem nunca ter que executá-los. Fracasso absoluto…A platéia impaciente não escondia o seu descontentamento com a minha performance.

Vamos mudar de mídia, pensei eu. Pais modernos não leem manual, eles seguem tutoriais. Alguém no youtube me ensinaria a fazer isto em questão de segundos. Novo fracasso, o trono de meu filho tinha botões, travas e cintos, diferentes dos vídeos em questão. Tudo agravado pelo fato de que o meu 3G mal funcionar dentro da garagem. A pressão crescia e o vídeo só serviu para mostrar que o trono móvel de meu filho já estava desatualizado.

Completamente exausto e reconhecendo minhas limitações cognitivas, eu ainda tentei argumentar que  quando eu era pequeno  viajava solto em uma parte nobre do carro chamada “chiqueirinho”. Era algo divertido. Eu gostava, especialmente quando o meu pai acelerava e freava e eu batia a cabeça em algum lugar do porta-malas. Foi uma apelação, desespero de causa. O máximo que consegui foi ouvir que daquele momento em diante o nosso filho estava proibido de conviver com um avô tão irresponsável.

Como pais precisamos educar os nosso filhos. A vida me ensinou na prática que nunca, jamais, em tempo algum, acredite em alguém que te diga que a cadeirinha do seu filho será fácil de lavar, transportar e instalar. Acredite mais em promessa de político em tempo de eleição do que nesta calúnia. Planejo retirar a cadeirinha para lavar novamente no dia em meu filho se alistar no exército.

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Espírito de natal

man in santa claus costume

– Pai, o Vicente me disse que irá se casar com o Papai Noel.

– Legal, meu filho. Que eles sejam muito felizes. Quem sabe um dia não vamos visitá-los na Lapônia.

-Pai, mas menino pode casar com menino ?

– Pode, meu filho. As pessoas tem que ir em busca da sua felicidade. Se o Vicente quando crescer, gostar de um outro homem e achar que é com ele que deve casar, ele pode fazer isto.

-Pai, mas o Papai Noel é velho. O Vicente pode se casar com um velho?

– Filho, o Vicente não irá casar com ninguém aos 4 anos de idade. Quando ele crescer e virar adulto, aí ele vai saber se ainda gosta do Papai Noel e se é com ele que quer casar. O importante é o Vicente ser feliz.

– E se o Papai Noel se casar com o Vicente, ele ainda virá aqui em casa para trazer presentes para mim?

– Claro, filho. Papai Noel jamais se esquece das crianças. Ele já tem uma relação estável com a Mamãe Noel e também é bem amigo dos duendes e mesmo assim, todo ano aparece por aqui. Isto não mudaria se ele se casasse.

-Ah, então tá. Ano que vem eu vou pedir um trem e um Power Rangers para ele.O natal está longe ?

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Separando meninos de homens

Catando Kokinhos

Fédération_Tunisienne_de_FootballA sabedoria popular diz que o que separa os homens dos meninos é o tamanho (ou o preço) dos seus brinquedos. Nestes últimos meses tenho vivenciado isto intensamente e é impossível fugir da comparação entre as minhas obsessões e as de meu filho. De um lado ele luta para completar o álbum da Copa 2018 e eu, de outro, me dedico a completar a cartelinha que me dá direito a panelas dos supermercados Pão de Açúcar. Ele sonha com a figurinha brilhante da seleção da Tunísia e eu me esforço para obter o selo que me levará à uma caçarola para molhos.

pannen

Logicamente a minha maior experiência de vida permite perseguir os meus objetivos com uma sutileza e educação que ele, do alto de seus quase cinco anos, não faz nenhuma questão de manifestar. Ele bate o pé, exige mais pacotinhos de figurinhas, eu dissimulo e fico blasé. É uma…

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Era uma vez um castelinho…

71YaQ1jUtqL._SL1500_Dia de sol, vamos brincar no parquinho da praça. Atração principal: tanque de areia. O projeto é a construção de um castelo medieval, com torres e fosso, cujo acesso se dará por highways livres de pedágios, onde os carros trafegarão sem limite de velocidade e sem radares fotográficos. Com uma visão de empreiteiro, decido também que a estrada terá um túnel, que logicamente ligará o nada ao lugar nenhum, somente para que os veículos passem por dentro.

Concordo que talvez haja um certo ecletismo no projeto e o resultado final possa ser catastrófico, mas  foram demandas do meu filho e vivemos em São Paulo, onde a referência de beleza são prédios neoclássicos com colunas jônicas. Feita esta ressalva, lá vou eu com todo o ferramental necessário para construção (pás,balde,forminhas,caminhão betoneira).

Junto com aquele que é ao mesmo tempo o meu cliente e mestre de obras, busco um canto com sombra, que parece ser o terreno ideal para a execução de nossa obra prima da arquitetura. Organizo o arsenal e inicio o processo de terraplenagem. Subitamente percebo que estou cercado por membros do MST da praça (MST=Movimento dos Soberanos do Tanquinho). Crianças de todas as idades se aproximam, invadem a minha propriedade produtiva,destroem o que eu havia começado a construir e somem com as minhas ferramentas de trabalho.

Moças vestidas de branco, que parecem ser as mentoras daquele ato, ficam passivas, fofocando entre si e olhando mensagens em seus celulares. Ninguém faz nada e de repente me vejo em uma batalha de Davi contra Golias para recuperar o baldinho vermelho, peça indispensável para o meu trabalho (eu sou o Davi, apesar de ter o triplo de tamanho de meu inimigo). Os militantes do MST atuam como uma gangue, apesar de terem uns 90 cm de altura . Tento o diálogo, explico que trouxe  o baldinho de casa, que é propriedade privada. Argumento que todos são bem vindos para brincarmos juntos desde que respeitadas algumas regras e que não se estrague o que o outro está fazendo…Nada. O caminhão, já sem rodas, parece desfalecido ao lado de uma moita. A forminha de estrela amarela foi vista pela última vez em cima de um escorregador a metros de distância do tanque de areia.

O meu desejo era dar um leve belisquinho em cada uma daquelas crianças mal educadas e fazer uma pregação para pais e babás negligentes da praça para que se mexessem. Explicar que brincar junto não é destruir e nem sumir com as coisas dos outros, que “por favor” ainda existe , que respeito ao próximo é importante em todas as situações, que educação não cai do céu. Desisti. Lembrei que eu só queria brincar com o meu filho e não para advogar por mudanças de caráter. Não naquela hora…peguei o espólio de meu ferramental e levei o meu filho para tomar sorvete…O próximo castelo será construído em minecraft.

 

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Palavrinha mágica

babytalk2-thumb-250x250Já faz alguns meses que o meu filho começou a tentar se comunicar através da fala (atentem que não escrevi falar e sim, tentar se comunicar através da fala). Está sendo um processo incrível. No começo 99,9% da humanidade, incluindo eu, achavam bonitinho ouvir os sons guturais emitidos por ele mas não tinham a menor idéia do que ele queria dizer. Logicamente, havia 0,01% do universo, popularmente conhecido como “mãe”, que não apenas conversava com ele neste idioma próprio como oferecia os seus serviços de tradutora e intérprete juramentada para os mortais.

Aos poucos, os sons começam a fazer sentido e você reconhece algumas palavras complexas sendo pronunciadas pelo seu filho. Logicamente “mamãe”está entre elas. Até aí você aceita….carregou 9 meses, acordou mais vezes, deu mais de mamar. É justo. Você então inicia um processo de condicionamento do seu filho, para que ele fale “papai”,senão com a mesma frequência, mas em um padrão aceitável, para que você não fique socialmente exposto e passível de ser julgado como pai ausente pelo tribunal de mães amigas de sua esposa.

Algo parece dar errado, porque quanto mais você o estimula, melhor ele pronuncia o nome da babá, especialmente quando ela está de folga ou viajou de férias para a Bahia. Se antes você acreditava que dividiria uma medalha de ouro com a mãe, observa que querer a medalha de prata já é algo quase impossível. Comemore caso o seu nome seja pronunciado entre os top ten. Você nem imagina mas está competindo com o guardinha da escola, o porteiro do prédio, a balconista da padaria e até com a Dolores, que você mais tarde descobre que é a tia da referida babá.  Se prepare psicologicamente para esta derrota, querer que seu filho pronuncie “papai”com a mesma frequência que ele faz “mamãe” é algo como enfrentar o Barcelona no Camp Nou. Se contente em perder de pouco…Pronunciar “mamãe” tem poderes maiores que qualquer senha biométrica de banco…seu filho perceberá isto bem cedo.

 

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Crônica de um marido proativo

– Vou colocar o João para dormir, enquanto isto você pode arrumar a mesa e cuidar o jantar ?

– Ok, mas o que vamos jantar ? Não tem nada na geladeira. A nossa auxiliar do lar não deixou nada preparado ?

– Ah, se vira aí. Ela teve que sair mais cedo para para cuidar da vizinha que está com dengue. Comprei pão e deve ter alguma coisa congelada.

Na imensidão gelada e inóspita de nosso freezer, depois de comemorar que a vítima do mosquito era a vizinha e não eu, encontro umas salsichas congeladas. Cauteloso, ainda me digno a checar se estão válidas. Tudo certo…

– Meu berro reverbera a partir da cozinha: – Vamos ter que comer “dogão”, tudo bem ?

O silêncio do outro lado me enche de energia e vou em frente antes que ouça um sussurro propondo um jantar a base de alface americana e tomate cereja….

Que panela utilizar para cozinhar as salsichas ? A resposta óbvia é: a primeira que aparecer na sua frente e que comporte o volume de água necessário para ferver as ditas cujas.clear_boiling_pot

Acendo o fogo, despejo as salsichas e algum tempo depois surgem as pequenas bolinhas da fervura…Me sinto um Master Chef.

Mais um tempinho, mais bolhas que agora se destacam entre um líquido amarelado, tingido pelo corante com o qual a Sadia garante a saúde da alimentação de seus consumidores.

Alguns minutos mais e a panela mimetiza a erupção do vulcão de Cracatoa, o inferno de Java. Minhas salsichas estavam no ponto…Que orgulho !

Sorrateiramente a esposa adentra a cozinha. Me posto ao lado da panela, tal qual um caçador que acabou de abater a sua presa. Hoje eu vou me dar bem, receberei elogios pela minha colaboração e criarei um climinha favorável para a sequência da noite.

– O que você fez ? Ouço um grito exaltado…

Por uma fração de segundo penso que minha esposa havia se convertido em uma defensora dos frágeis porquinhos que se sacrificaram por aquelas salsichas. Não me parecia ser este o caso. A raiva era maior.

– Como assim, o que eu fiz ? Preparei as salsichas para que você não passasse fome e não corresse o risco de ficar desnutrida.Eu ainda perguntei se você topava jantar esta iguaria.

– Você cozinhou as salsichas na panela que eu uso para esterilizar as mamadeiras do João. Você não percebeu que esta panela é só dele ?

– Não, mas tem problemas ? Fervi a água e “lavou, está novo”. O leite dele não será contaminado por salsichas mutantes e radioativas, fique tranquila…

A argumentação foi em vão. As salsichinhas foram julgadas culpadas e condenadas ao inferno, João ganhou uma panela nova no dia seguinte e jantei, sozinho, alface com tomate cereja.