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Medicina moderna

virusDoutor, o meu filho está com febre.

O nariz dele está entupido.

Ele não pára de chorar.

Está com dor de barriga.

Não está se alimentando bem.
Não consegue dormir.

Quer ficar no colo o tempo inteiro.

Vomitou várias vezes.

Antes que o doutor comece a fazer o diagnóstico eu queria combinar uma brincadeirinha:

O senhor promete que não vai me dizer que meu filho está com uma virose que passará em alguns dias ? Foram anos de estudo, residência, plantões, dedicação integral com noites em claro e distância da família. O senhor pode mais do que isto ! Vamos ! Confio no seu potencial… Já aprendi que pediatras gostam de brincar e falar no diminutivo para entreter a criançada, então vamos combinar que por dez minutos o senhor fica proibido de dizer a palavrinha mágica “virose”. Vamos ver quem ganha…Se falar virose, o pai do pacientinho dodói não pago a consultinha, há,há,há. Se o senhor conseguir passar pelo teste, e me disser o que o meu filho tem de fato, o senhor leva R$ 600,00 (mas com recibinho, por favor). Vamos  brincar ?

Por enquanto este diálogo é apenas um delírio de um pai que descobriu que a virose está para a medicina da mesma maneira que o tomate seco e as paletas mexicanas estão para a gastronomia, ou seja como uma praga de origem não identificada. Um dia esta será minha abordagem de verdade…

 

 

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Poeira cósmica

poeira cósmicaPreocupado com as perspectivas do setor elétrico e o risco crescente de apagões, meu filho aparentemente começou a flertar com outras profissões diferentes daquelas que eu havia mencionado no post anterior e que indicavam um menino predisposto para trabalhar com eletricidade. Nada como o dinamismo da infância para permitir que ele mude de idéia. Um dia é diferente do outro! Agora ele resolveu dar um tempo nas mordidas em fios e nos dedos colocados em tomadas e focar para a coleta seletiva de lixo. O problema é que ele ainda não seleciona nada ! Vai engatinhando e coloca na boca tudo o que vê pela frente: a preferência é por migalhas e sobretudo pó…É fascinante mas ele desenvolveu um apetite especial pelas pequenas partículas que se depositam no chão. A bolsa de apostas óbvias indica que ele tem grande aptidão para ser lixeiro ou técnico de aspirador. Eu como pai sonhador, prefiro pensar que ele só quer se alimentar de poeira das estrelas…

 

 

 

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Futuro iluminado

lampadaTodos os pais normalmente observam o comportamento dos filhos e tentam advinhar a profissão que eles terão no futuro. Alguns acreditam que seus filhos, somente por brincarem com bloquinhos, serão engenheiros, outros pensam que as primeiras palavras dos filhos, são um indício de dom da oratória, característica que os levará a ser advogados , tem também a turma que enxerga vocação para medicina por seus filhotes esquartejarem os seus bonequinhos. No caso do meu filho, se depender da adoração por ligar e desligar interruptores, colocar o dedo na tomada, mexer em fios e pela vibração quando uma lâmpada acende, posso apostar que ele exercerá a gloriosa profissão de eletricista. Estou tranquilo…é garantia de um futuro iluminado !

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Burp

burpAo longo de toda a gravidez, o papel do pai pode ser definido como o de um ator coadjuvante, contracenando e fazendo figuração para que a atriz principal, no caso a mãe, reforçada pelo seu figurino de barrigão e seus efeitos especiais de fome incessante e sono perpétuo, possa brilhar.

Pobres papais acreditam que esta situação se reverterá com o nascimento do filho…Criam a fantasia que o jogo se reequilibrará e que dali para frente tanto o pai como a mãe atuarão em jogral, com o mesmo nível de protagonismo. Esta ilusão termina com as primeiras mamadas e a transformação da mamãe em uma divindade produtora do néctar sagrado, o leite…E o papai ? Aquele que resmungava por ser coadjuvante na gravidez, agora ainda mais resignado, tem que lidar com a sua nova função: o nobre cargo de arrotador oficial. Papai agora entra em campo com o intuito de ajudar o seu rebento a produzir burps…Nada além disto…Ao longo dos primeiros dias esta tarefa é realizada com orgulho, a satisfação de ouvir um pequeno trovão surgindo de dentro de seu próprio filho o faz se sentir um pai participativo, digno de propaganda de Gelol. Depois de algumas semanas e uma série de fracassos, o pai passa a perceber que esta não é exatamente a sua maior virtude e os minutos até que seu filho arrote e portanto o arrotador seja liberado para dormir, passam a se prolongar…Tapinhas nas costas,sacolejos, dança da chuva e nada da pequena criatura liberar os seus gases. A paciência do pai na função diminui, ele passa a questionar o seu papel na sociedade, pensa em colocar isto na pauta dos Black Blocks e cogita até misturar Coca Cola quente no leite do filhote para agilizar as coisas. O pior vem quando o pai tenta passar a perna na mãe natureza e colocar o seu filho para deitar sem arrotar. Canastrão, o pai volta para a cama e afirma para a esposa que fez tudo certo e que o bebê dormirá como um anjo…A trapaça não passa pelo detector de mentiras chamado de babá eletrônica, que impiedosa amplifica ainda mais  o choro do seu filho. Agora não apenas ele chora, como precisa ser trocado pois regorgitou todo o leite. Inclemente a mãe decreta a condenação do pai – volte ao início: troca de roupa, com um “aproveite e troque a fralda” e o coloque para arrotar (direito!). É dura a vida de arrotador oficial…

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Vida longa ao rei !

imagesA partir do nascimento do seu filho, a casa claramente passa a ter um novo rei. No meu caso, os meus dias de glória como monarca, agora são memórias vagas, transferidas para a nuvem digital, afinal as milhares de fotos que tirei na maternidade tem preferência sobre as minhas velharias.

As minhas terras, outrora representadas pelo singelo nome de “meu canto” e que foram tão duramente conquistadas, agora foram invadidas sem piedade, não por tanques de guerra, mas por carrinhos com rodas que andam em qualquer terreno, e que por ora vivem estacionados em um espaço que eu imaginava ser meu território sagrado.

A batalha definitiva, que levou a minha completa capitulação, não teve armas químicas ou nucleares, foi tecnológica. Não estou falando de hackers, vírus ou algo que me fosse familiar.  Estou falando de algo mais avançado, certamente desenvolvido pela central de inteligência da Alô Bebê…

Descobri que a minha rede de wi-fi operava na mesma sintonia da babá eletrônica, canal de comunicação utilizado pelo novo rei para que os súditos se dirijam aos seus aposentos e o saciem em sua volúpia láctea. Em resumo: ou um ou outro..babá eletrônica e wi-fi são inimigos vicerais que não dificilmente podem viver em um mesmo ambiente. No meu caso, o duelo entre o meu wi-fi e a babá eletrônica teve uma dramaticidade equivalente  a observada quando os Estados Unidos resolveram invadir a ilha de Granada…Não tentei argumentar, não pensei em dizer que a voz do rei não precisaria de amplificador para ser ouvida…Desisti, sem oferecer qualquer resistência…Levantei a bandeira branca e dei-me por satisfeito em ainda ter uma internet a cabo. Os desejos do rei são soberanos. Seja bem vindo. Vida longa ao Rei João ! Estou adorando estar aos serviços de sua majestade.

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Curumim

CurumimDizia o psicólogo Abraham Maslow que existe uma escala de necessidades na vida. A base da pirâmide de Maslow seria composta pelas nossas necessidades fisiológicas, ou seja, comer, beber, dormir, respirar….Só nos preocuparíamos com os níveis seguintes, o das necessidades de segurança, de relacionamentos sociais, auto-estima e realização pessoal, a partir do momento em que estivéssemos com o primeiro nível devidamente saciado. Simplificando: não dá para pensar em estar bonito ou ser bem sucedido profissionalmente se estou apertado para ir ao banheiro ou morrendo de frio…

Sempre pensei que para um bebê recém nascido, o foco principal seria assegurar estas coisas básicas, ou seja alimentá-lo no peito, mantê-lo limpo, agasalhado e deixá-lo hibernar. Quando vi a lista de coisas recomendadas para alguém que mal chegou ao mundo, imagino que Maslow deva ter se revirado em sua tumba…Chupeta com termômetro acoplado para controlar a temperatura do bebê, aquecedor de mamadeira portátil que liga no carro, lixo que neutraliza os odores dos detritos produzidos pelo príncipe, aquecedor de lencinhos umedecidos para que seu bumbunzinho não tenha um choque térmico…

Quando vejo tudo isto, tenho um lampejo de remorso. Se eu não comprar estes cacarecos, será que eu serei um pai alienado e desatualizado ? Será que eu serei acusado de tratar meu filho como um curumim  da tribo dos Tupiniquins, ou seja desprovido dos confortos do mundo moderno ? O remorso passa rápido…Foco no básico !  A escala de necessidades do meu filho será devidamente atendida com o leitinho da mamãe e sem estes apetrechos, que nada mais mais são do que facas Ginzu e meias Vivarina versão recém nascido.

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O tempo é relativo

Você sempre achou que uma gravidez levava 9 meses. Santa ignorância…Falar em meses para uma mulher grávida é algo parecido com dizer a um brasileiro que Maradona é melhor do que Pelé…Desperta sentimentos pouco nobres. Aprenda que como parte do seu processo de aceitação como pai, a sua unidade de medida para qualquer coisa relacionada a gravidez, deve ser obrigatoriamente convertida em semanas. Não tente roubar no jogo e ficar dividindo as coisas por 4 para seguir falando em meses, isto não apenas não é aceito como é duramente reprimido. Para as mulheres as suas semanas são como números primos, divisíveis apenas por 1 e por eles mesmos. Depois de algumas tentativas frustradas de chegar a um denominador comum, desisti de entender a matemática fundamentalista que os obstetras insistem em disseminar (não me consta que eles tenham sido muito exigidos nesta disciplina ao longo de sua vida acadêmica). Estou confiando bem mais na sabedoria numérica da natureza…quando o bebê estiver pronto para nascer, ele dará os seus sinais e aí o tempo passará a ser medido em contrações por minuto, o que é bem mais legal….